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DDMRP em manufatura discreta com BOM profunda

BOM com 5+ níveis trava o MRP em nervosismo. Veja como o DDMRP posiciona buffers em pontos estratégicos da árvore e estabiliza a fábrica, com a stack ForgeFlow no Odoo.

Luis Felipe Miléo

Luis Felipe Miléo

· 5 min de leitura

Manufatura discreta com BOM profunda — cinco, seis, sete níveis de explosão — é o caso onde o MRP tradicional mais sofre. Cada alteração de previsão em um produto acabado se propaga pela árvore inteira como uma onda, gerando o que a literatura DDMRP chama de bullwhip effect interno: ordens de produção e ordens de compra que oscilam dia a dia mesmo quando a demanda real não oscilou.

O DDMRP resolve esse problema com um conceito específico: decoupling points (pontos de desacoplamento). Em vez de transmitir cada flutuação até o nível mais baixo da BOM, o DDMRP coloca buffers em pontos estratégicos da árvore. Esses buffers absorvem a variabilidade e desacoplam o que está acima do que está abaixo.

Por que MRP sofre com BOM profunda

A matemática é direta. Se o produto acabado tem variabilidade σ na demanda, e a BOM tem 5 níveis sem amortecimento, a variabilidade percebida no nível mais baixo (matéria-prima) pode chegar a múltiplos de σ por causa dos efeitos de:

  • Lead time stack-up (lead times somados ao longo da árvore)
  • Multiplicador de quantidade por nível (BOM yield)
  • Lotes mínimos em cada nível
  • Reprogramação em cada rodada do MRP

O resultado é o “nervosismo do MRP”: ordens criadas e canceladas, datas movidas, planejadores correndo atrás de exceções. Quem operou Protheus, SAP, Datasul ou o próprio MRP do Odoo em fábrica complexa conhece o sintoma.

Decoupling points: onde colocar buffer

A literatura DDMRP (Ptak/Smith) define seis fatores para escolher onde colocar decoupling points numa BOM:

  1. Customer tolerance time — quanto tempo o cliente está disposto a esperar
  2. Market potential lead time — quanto tempo o mercado considera competitivo
  3. Variable rate of demand — onde a demanda é mais errática
  4. Sales order visibility horizon — até onde se vê pedido firme
  5. External variability — onde fornecedores são instáveis
  6. Critical operation protection — proteger gargalos e operações de alto custo

A regra prática derivada desses seis fatores é: buffer em itens de consumo comum (used in many) e buffer no item que define o lead time do cliente.

Em uma BOM típica de bem durável (eletro, autopeças, máquina), os decoupling points caem em:

  • Matéria-prima crítica (aço, polímero, eletrônico)
  • Subconjuntos comuns (motor, placa eletrônica, módulo padronizado)
  • Produto acabado em SKUs de alto giro

Os níveis intermediários não têm buffer — operam em fluxo (make-to-order interno disparado pelo nível imediatamente acima).

DLT — Decoupled Lead Time

O conceito chave que viabiliza isso é o DLT (Decoupled Lead Time). O DLT de um item é o maior caminho não bufferizado até esse item na BOM. Se um subconjunto está bufferizado, o lead time do produto acabado para fins DDMRP é apenas o tempo de montagem — não o tempo somado de toda a árvore.

Isso muda dimensionamento de buffer drasticamente. Um produto acabado cujo DLT bruto seria 45 dias (somando MP + transformação 1 + transformação 2 + montagem) pode ter DLT efetivo de 5 dias se MP e subconjuntos estiverem bufferizados. Buffer de produto acabado encolhe na proporção.

O glossário DDMRP detalha: DLT, ADU, NFP.

Como a stack ForgeFlow modela isso no Odoo

A camada DDMRP da ForgeFlow (mantenedora dos módulos OCA e da camada Professional) representa a BOM no Odoo nativo (mrp.bom) e adiciona o conceito de buffer no stock.buffer. Cada item da BOM pode ser:

  • Buffered — tem stock.buffer ativo, é decoupling point
  • Non-buffered — flui sob demanda do nível superior

O cálculo de DLT é feito automaticamente pelo módulo, percorrendo a árvore e parando em cada decoupling point. Quando o engenheiro adiciona ou remove buffer em um nível, o DLT dos níveis acima recalcula.

A camada Professional da ForgeFlow adiciona ainda simulation multi-level (testar uma política de buffer antes de aplicar) e BOM optimization (recalcular buffers automaticamente quando engenharia altera a BOM). Veja o post sobre simulation multi-level e o post sobre BOM optimization.

Onde manufatura discreta falha em DDMRP

Três armadilhas comuns:

  1. Buffer em todo nível — o engenheiro, com medo de ruptura, bufferiza tudo. Resultado: capital empatado e o método não desacopla.
  2. Falta de disciplina em make-to-order entre níveis — operação insiste em produzir subconjuntos “para ter pronto” sem ordem firme do nível acima, recriando o nervosismo manualmente.
  3. Ordem de produção fora do DDMRP — engenharia, qualidade ou comercial criam ordens manuais que não respeitam o sinal do buffer.

Stack e papéis

A stack DDMRP é da ForgeFlow (Espanha), parte open source mantida em OCA. A camada Professional (simulation multi-level, BOM optimization, dashboard avançado) é proprietária ForgeFlow. A KMEE é parceira oficial brasileira para implantação Enterprise — modelagem da BOM, posicionamento de decoupling points, treinamento de PCP.

Leituras relacionadas:

#ddmrp #pcp

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Sobre o autor

Luis Felipe Miléo

Luis Felipe Miléo

Desenvolvedor Odoo · KMEE

Desenvolvedor especializado em localização fiscal e projetos open source no ecossistema Odoo/OCA, com foco em integrações para o mercado latino-americano.

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