Os 9 fatores que dimensionam um buffer DDMRP no Odoo
Buffer profile no DDMRP combina 9 entradas que decidem o tamanho das zonas. Lista completa, peso de cada fator e onde aparecem no stock.buffer do Odoo.
Luis Felipe Miléo
Não existe “tamanho médio de buffer”. O dimensionamento DDMRP é determinístico: dadas as entradas, sai um número. O que muitos times não percebem é quantas entradas existem. Este post lista os 9 fatores que entram no dimensionamento de um stock.buffer em Odoo (na stack DDMRP publicada pela ForgeFlow nos repositórios OCA — KMEE é parceira oficial brasileira para implementação).
Os 9 fatores em ordem de impacto
1. Item Type
Define a categoria base do item:
- Manufactured — fabricado internamente
- Purchased — comprado de fornecedor externo
- Distributed — abastecido por outro armazém da mesma empresa
- Intermediate — semi-acabado em níveis intermediários da BOM
O item type não muda diretamente o cálculo numérico das zonas, mas determina qual lógica de DLT usar (lead time de produção vs. compra vs. transferência) e qual rota de reposição disparar quando a NFP cai.
No Odoo: campo item_type em stock.buffer.profile.
2. Lead Time Category
Classificação categórica do lead time:
- Short — fator típico 0,2-0,3
- Medium — fator típico 0,4-0,5
- Long — fator típico 0,6-0,7
O fator multiplica DLT na fórmula da Red Base (Red Base = ADU × DLT × LT_factor) e na parte do lead time da Green Zone. Quanto maior o lead time, maior o fator, e proporcionalmente maior o pedaço de segurança.
Decisão de classificação: depende do contexto da indústria. Em distribuição alimentar, “long” pode ser 30 dias; em importação química, “long” pode ser 120 dias.
3. Variability Category
Classificação categórica da variabilidade:
- Low — fator típico 0,2-0,3
- Medium — fator típico 0,4-0,5
- High — fator típico 0,6-0,7
Multiplica a Red Base para gerar Red Safety (Red Safety = Red Base × Variability_factor). Itens com CV (coeficiente de variação) alto recebem variability category High e ganham zona vermelha maior.
Como medir: CV = desvio-padrão da demanda / média da demanda em janela móvel. Em Odoo, vale calcular fora e classificar; ou usar relatórios da stack.
4. ADU — Average Daily Usage
Já coberto em post anterior da série. É multiplicador de tudo:
- Red Base = ADU × DLT × LT_factor
- Yellow = ADU × DLT
- Green (parte) = ADU × DLT × LT_factor
ADU é a entrada que mais oscila ao longo do tempo. As outras tendem a ser estáveis ou semestrais.
5. DLT — Decoupled Lead Time
Lead time de reposição efetivo. Calculado pela stack a partir da BOM e dos componentes bufferizados upstream.
- Red Base ∝ DLT
- Yellow ∝ DLT
- Green (parte LT) ∝ DLT
Reduzir DLT é uma das alavancas mais poderosas do DDMRP — não depende de software, depende de negociar lead time com fornecedor ou bufferizar componentes upstream (criando ponto de desacoplamento).
6. MOQ — Minimum Order Quantity
Lote mínimo de fornecimento. Pode vir do fornecedor (compra), do setup de produção (manufatura) ou de embalagem (caixa fechada).
A Green Zone é o maior entre três candidatos:
- ADU × DLT × LT_factor
- MOQ
- ADU × order cycle
Se MOQ é grande, ele “sobe” a Green Zone (e portanto o ToG). Resultado prático: pedidos menos frequentes, em lotes maiores.
No Odoo: qty_multiple e lead_days no product.template ou no próprio stock.buffer.
7. Order Cycle desejado
Frequência alvo de pedidos. Útil quando o negócio quer agrupar pedidos do mesmo fornecedor (frete, desconto por volume).
Order cycle expressa-se em dias (ex.: “quero pedir desse fornecedor a cada 14 dias”). A Green Zone vira ADU × order_cycle se esse valor for maior que MOQ e maior que o componente de LT.
8. Order Spike Horizon e Threshold
Não dimensionam zonas, mas afetam qualified demand (e portanto NFP). Coberto em detalhe no post sobre order spike.
- Spike Horizon: janela de dias à frente em que se procuram picos
- Spike Threshold: patamar (em % da Red Zone, ou unidades absolutas) acima do qual a demanda é considerada spike
Ambos são parâmetros do stock.buffer em Odoo.
9. DAF e ZAF
Multiplicadores temporais para eventos planejados:
- DAF (Demand Adjustment Factor): multiplica ADU em janela de datas. Bom para sazonalidade e promoções planejadas.
- ZAF (Zone Adjustment Factor): multiplica diretamente o tamanho de zonas em janela de datas. Bom para eventos pontuais que mudam dinâmica de fluxo (parada programada, promoção curta).
DAF afeta zonas indiretamente (via ADU); ZAF afeta zonas diretamente. Saber qual usar é parte da arte de calibrar o sistema.
Os 9 fatores em ordem de impacto
| # | Fator | Onde aparece |
|---|---|---|
| 1 | Item Type | Roteamento de reposição |
| 2 | LT Category | Red Base, Green |
| 3 | Variability Category | Red Safety |
| 4 | ADU | Multiplica tudo |
| 5 | DLT | Multiplica Red, Yellow, Green |
| 6 | MOQ | Piso da Green |
| 7 | Order Cycle | Eleva Green se relevante |
| 8 | Spike Horizon/Threshold | Qualified demand |
| 9 | DAF / ZAF | Ajustes temporais |
Como esses fatores se compõem (exemplo)
Item Z, Manufactured, com:
- ADU = 50 un/dia
- DLT = 20 dias
- LT Category = Medium (fator 0,5)
- Variability Category = High (fator 0,7)
- MOQ = 100
- Order cycle = 0 (sem agrupamento)
Cálculos:
- Red Base = 50 × 20 × 0,5 = 500
- Red Safety = 500 × 0,7 = 350
- Red Zone = 850
- Yellow Zone = 50 × 20 = 1.000 → ToY = 1.850
- Green Zone = max(500; 100; 0) = 500 → ToG = 2.350
Mude Variability para Low (0,3) e a Red Zone cai para 500 + 150 = 650. Resultado: ToG = 2.150 (menos 200 unidades de cobertura). Em projeto, calibragem de variabilidade tem impacto direto em capital de giro.
Onde calibrar primeiro
Em implementação nova, a ordem que recomendamos:
- Definir Item Type corretamente (raramente muda depois)
- Calibrar DLT (negociar com fornecedor / mapear BOM)
- Escolher método de ADU e horizonte
- Classificar LT e Variability com base em dados, não em achismo
- Setar MOQ real (não o “negociado para tabela”, mas o efetivo)
- Configurar Spike (horizon e threshold) só depois que NFP estiver estável
- DAF/ZAF só para eventos efetivamente conhecidos
Próximos posts
Vimos os fatores que dimensionam. Os próximos aprofundam NFP e Order Spike:
Em produção (FFA, Odoo 18), o ajuste de profile foi feito em três ondas: primeiro para SKUs A (Pareto de receita), depois para SKUs B com volatilidade alta, por último para a cauda. Fale com a KMEE se quiser entender o método de implementação.
Sobre o autor
Luis Felipe Miléo
Desenvolvedor Odoo · KMEE
Desenvolvedor especializado em localização fiscal e projetos open source no ecossistema Odoo/OCA, com foco em integrações para o mercado latino-americano.
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