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MRP tradicional vs DDMRP: por que a previsão deixou de ser confiável

Comparativo lado a lado entre MRP previsão-baseado e DDMRP demand-driven. Onde cada um vence, casos reais e quando vale migrar a lógica de planejamento.

Luis Felipe Miléo Luis Felipe Miléo Gestão Empresarial 4 min de leitura

A pergunta que todo gerente de PCP faz quando ouve falar de DDMRP pela primeira vez é a mesma: “isso substitui meu MRP?”. A resposta curta é sim, no que diz respeito à geração de ordens. A resposta longa é mais interessante, porque depende do tipo de operação.

Este post coloca os dois métodos lado a lado, do ponto de vista prático de quem opera um ERP.

O que MRP faz (e o que pressupõe)

MRP, formalizado por Joe Orlicky em 1975, parte de três entradas:

  1. MPS (Master Production Schedule): o que vou produzir, quando
  2. BOM: a lista de materiais
  3. Inventory record: o que tenho

A partir disso, ele faz explosão de necessidades: para produzir X na data D, preciso do componente Y na data D - lead time. Replica em cascata pela BOM e devolve ordens planejadas (de compra ou produção).

A premissa implícita é que o MPS é confiável, e o MPS é, em última instância, previsão.

Onde a premissa quebra

Em 2026, o MPS é confiável em poucos cenários:

  • Demanda muito estável (CV < 0,2)
  • Cliente único com forecast contratual
  • Make-to-order onde o pedido firme é o MPS

Fora disso, o MPS carrega erro de previsão. E erro de previsão explode quando passa pela explosão da BOM. Esse é o famoso efeito chicote (bullwhip): variação pequena no consumidor final vira variação enorme nos componentes upstream.

O sintoma operacional é conhecido:

  • Excesso de SKUs A com cobertura de 4-6 meses
  • Ruptura recorrente em SKUs B/C
  • Programador que muda a ordem 3 vezes por semana
  • Comprador que vive apagando incêndio
  • Supervisor de chão que recebe ordens “urgentes” todo dia

O que DDMRP faz diferente

DDMRP não usa o MPS como gatilho de geração de ordens para itens bufferizados. Em vez disso:

  1. Decide onde colocar buffer (Strategic Inventory Positioning)
  2. Dimensiona cada buffer em três zonas (verde/amarelo/vermelho)
  3. Recalcula ADU (Average Daily Usage) ao longo do tempo
  4. Compara Net Flow Position com os topos do buffer diariamente
  5. Gera ordem quando NFP < ToY (topo do amarelo)

A previsão não desaparece: continua útil para capacidade, S&OP, sazonalidade conhecida (DAF). Mas ela deixa de ser o gatilho diário de execução.

Tabela comparativa

AspectoMRP tradicionalDDMRP
Gatilho de ordemMPS / forecast explodido pela BOMNet Flow Position do buffer
Horizonte de planejamentoForecast longo (3-12 meses)ADU recente + qualified demand do dia
Como reage a variabilidadeStock de segurança aditivo, frequentemente subdimensionadoBuffer com 3 zonas, dinamicamente ajustado
BullwhipAlto (amplifica erro de forecast pela BOM)Baixo (cada buffer absorve e desacopla)
Service level típico90-95% com estoque alto98-99% com 20-50% menos estoque
Esforço operacionalReagendamentos constantesTrabalho por exceção (vermelho primeiro)
Quando brilhaDemanda estável, MTO puroVariabilidade alta, lead times instáveis
Quando perdeVariabilidade altaDemanda perfeitamente estável (raro)

Onde MRP ainda basta

Nem toda operação precisa de DDMRP.

  • Make-to-order puro com lead time de cliente > lead time de produção: planejamento por pedido firme funciona.
  • Engineer-to-order: cada produto é único, não faz sentido bufferizar.
  • Catálogo enxuto e estável (< 50 SKUs com CV baixo): MRP entrega bem.
  • Empresa em fase de implementação inicial de ERP: estabilizar o MRP antes de pensar em DDMRP é caminho saudável.

Onde DDMRP vence claramente

  • Distribuição com SKUs voláteis e múltiplos CDs (caso da FFA, distribuidor brasileiro em produção com a stack DDMRP da ForgeFlow em Odoo 18)
  • Indústria de processo com componentes longos de importação
  • Make-to-stock com sazonalidade e promoção
  • Cadeias com lead time de fornecedor maior que tolerância do cliente
  • Mix alto (centenas a milhares de SKUs ativos)

Nesses casos, adotar DDMRP é uma mudança estrutural no planejamento.

Migrar não é trocar tudo

É comum achar que adotar DDMRP significa desligar o MRP do ERP, mas os dois convivem.

Em Odoo, a stack DDMRP publicada pela ForgeFlow (parceira oficial Odoo na Espanha, autora do código) introduz o modelo stock.buffer que convive com o mrp.production nativo. Itens bufferizados passam a ter sua ordem gerada pelo motor DDMRP. Itens MTO/ETO continuam pelo fluxo MRP nativo. Capacidade segue dimensionada pelo MPS/forecast. KMEE atua como parceira brasileira implementadora dessa stack, não como autora do código.

Para entender a mecânica do stock.buffer, veja os próximos posts da série: como ADU é calculada, os 9 fatores que dimensionam um buffer e a fórmula da Net Flow Position.

Quer avaliar se sua operação é candidata a DDMRP? Fale com a KMEE.

  • #ddmrp
  • #pcp

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Sobre o autor

Luis Felipe Miléo

Luis Felipe Miléo

CEO e sócio-fundador · KMEE

Sócio-fundador da KMEE e PSC da Odoo Community Association. Mantém com o seu time a localização fiscal brasileira do Odoo (l10n-brazil) e outros módulos da OCA desde 2012. Certificado Demand Driven Planner, escreve sobre ERP, open source, fiscal e IA aplicada às operações.

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